segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O Baú do Egípcio.

Das histórias que mais me impressionam e se passaram aqui no Bar do Chopp Grátis, pelo menos em parte, esta é uma delas... Começa no tempo em que ainda não havia Shopping Centers na cidade, em plena Rua do Costa que ficava perto do Colégio Pedro II, entre a Praça da Republica e o colégio, no Centro do Rio de Janeiro. Costumava frequentar esse bar bem em frente a uma loja de meu pai. Dizia-se que o senhor Manuel e a dona Maria, casal simpático, não eram empregados, e sim os donos, e que dona Maria não era casada com ele. Foram eles a minha inspiração para criar o Bar do Chopp Grátis, um lugar onde se escutavam historias de todos os tipos contadas por pessoal do Itamarati, da Light, militares, comerciantes e políticos.

Egípcio

Por essa época, nos anos 60, ainda chegavam emigrantes de Portugal, Israel, Líbano, Alemanha, Japão, e de muitos países de todo o mundo, que rapidamente se integravam com o povo brasileiro. Faziam-se amizades mais ou menos sólidas e os negócios muitas vezes nem precisavam de contrato. Eram na palavra. As desconfianças vieram depois. 

Num certo dia enevoado, sombrio, em que nem se repara nas pessoas, provavelmente num mês de Julho, um egípcio com quem tinha feito sólida e boa amizade me chegou com um baú . Disse que precisava  fazer uma viagem, e pediu que o guardasse até a sua volta. Então perguntei-lhe a quem o deveria entregar acaso não voltasse por qualquer motivo. Respondeu-me que me avisaria, mas que se não recebesse noticias dele em dois ou três anos, que ficasse com o baú. Isto foi por volta de 1963, por aí, e em 2010, quando inaugurei o Bar do Chopp Grátis mais moderno, coloquei o baú numa prateleira como decoração. Nem lembro quando o abri, mas não tinha nada de valioso a não ser um Kilim, ou tapete pequeno de oração. Mandei avaliar, mas não era valioso. Coloquei-o na prateleira por debaixo do baú. Meu amigo cujo nome nem lembro por completo (Ele era conhecido como Radamés),nunca mais apareceu nem mandou noticias. Ninguém reclamou o baú, que nunca vendi, apesar de ofertas que clientes e namoradas fizeram. Não se vendem coisas nessas circunstancias nebulosas, envoltas em amizade. Até que, no ano passado...

Gente suspeita chega ao Bar.       

Primeiro chegou um, sentou-se numa mesa e passou a ser frequentador assíduo. Reparei nele por ter um tipo de bigode que não se usa mais e por ser muito reservado. Umas semanas depois notei que tinha companhia: Uma bela moça de uns 27 anos de idade, de traços árabes, do tipo que não conversa com estranhos. Ele também parecia de origem árabe, mas poderia ser avô ou pai dela. Um mês depois, mais ou menos, juntou-se-lhes mais um casal, e embora não tivessem aspecto de serem árabes, tinham em comum que conversavam apenas entre si, muito pouco, em voz baixa. E de vez em quando olhavam para o baú, o que sempre achei muito normal. Era uma bela peça em que quase todos os clientes reparavam. Levaram um par de semanas indo ao Bar, olhando o baú, até que me convidaram para me sentar com eles. Quando me sentei, preparei-me para escutar uma proposta de compra. Vistos de mais perto, olhos nos olhos, havia algo que não agradava, como se fizessem pequenos e constantes esforços para parecerem tranquilos, convincentes, compreensivos e simpáticos. Mas eu não o venderia, fosse qual fosse a proposta. Contaram-me uma história. 

Uma história do baú

O homem de bigode apresentou-se. Chamava-se Gamal e a moça, sua filha, Amilah. O casal que chegara mais tarde eram seus parentes. Disse-me que o baú tinha uma historia e começou:

- Temos reparado nesse baú que está na prateleira. Reparei nele logo no primeiro dia em que entrei em seu bar. O valor dele é sentimental porque um parente nosso tinha um igual. Na verdade, este é uma cópia  de um outro que foi encontrado na tumba de Tutancâmon e que está no museu do Cairo. Pode mandar avaliar e verá que lhe digo a verdade.
- E de onde vem o valor sentimental? Perguntei-lhes olhando para todos. Amilah respondeu.
- Acreditamos que pertenceu a um tio, irmão de meu pai, que desapareceu misteriosamente. Se for verdade, há uma pequena marca que parece o raspar leve de uma ferramenta que deixou pequeno e indelével sulco na madeira do fundo. Gostaríamos de olhar. Podemos?

A proposta

Fui até a prateleira, retirei o baú e o olhamos sobre a mesa. A marca estava lá. Enquanto olhavam perguntei o nome do parente, e me disseram que se chamava Radamés. Então...Aquele meu amigo que deixara a peça comigo, o Radamés, era tio da moça... Mas nesse caso porque não me teria avisado para lhes entregar o baú, já que  eram de família? Preparei todos os meus sentidos para ficarem de sobre-aviso. Disse-lhes:

- Não pretendo vender esse baú. Tenho-o desde 1963, e já faz parte de minha vida e de minhas recordações. Parece impossível medir o que seria maior e mais forte, se o valor da minha afeição ou o vosso sentimental que nutrimos por ele. Em todo caso, vou consultar um especialista e embora não pretenda vendê-lo, se desejarem podem fazer uma oferta de preço, quem sabe me surpreendem? Em todo caso preciso de alguns dias...Digamos uns 30. 

Concordaram entreolhando-se e abanando positivamente as cabeças. Depois pagaram a conta e saíram. 

Para negociar, conheça-se do negócio ...


No dia seguinte pedi a um velho amigo que viesse novamente avaliar o baú que, por precaução, levara para minha casa. Queria ter certeza do valor. Também consegui com outro amigo meu que lhe tirasse uma chapa de raios x. Ele trabalha num hospital perto do bar. O primeiro me disse que a peça era realmente uma imitação muito bem feita, incluindo madeira envelhecida, obra de artista que deveria ter tido acesso ao baú original, no Cairo, tal a riqueza de detalhes e das medidas. Não eliminou a hipótese de aquele baú ter sido feito com a intenção de falsificar e vendê-lo a bom preço. A radiografia mostrou algo impressionante de tão pequeno e complicado. Foi por isso que no dia seguinte o baú já estava de volta ao Bar do Chopp Grátis, no mesmo lugar da prateleira onde sempre estivera, por cima do kilim. Porem faltava-lhe algo que nem o melhor conhecedor de antiguidades ou com vista mais apurada poderia identificar.

Uma visita noturna inesperada 

Passei duas semanas tentando saber tudo sobre chaves. Chaves de cofres e de bancos. A radiografia revelara um pequeno encaixe de madeira num dos lados do baú, perfeito, que escondia uma pequena cavidade com uma chave. A peça que liberava o encaixe era uma pequena haste vertical que se puxava desde o topo da lateral,e por ficar debaixo da tampa nunca ficava visível. A chave parecia ser adequada a pequenos cofres de bancos destinadas a guardar pertences de clientes. Mas qual Banco? Em que país?
Retirei a chave e devolvi o baú para a prateleira do Bar assentando-o sobre o Kilim. 
Tive que explicar a Gamal e aos outros três familiares, que continuavam visitando o Bar, que a pessoa que verificaria o valor do baú estava de viagem e que a aguardava a qualquer momento. Estranhei que as senhoras não tivessem voltado ao bar, e que em vez disso, em outra mesa tivessem aparecido dois sujeitos com aspecto de seguranças. Comecei a pensar seriamente em me cuidar. 
Uns dias depois, ao chegar em casa, tive uma surpresa. No hall vi um senhor de idade, sentado confortavelmente no sofá, conversando com o porteiro. Quando entrei os dois olharam para mim. Impossível não reconhecer o Radamés apesar da idade. Demo-nos um grande abraço.

Operação resgate
    
Recordamos os velhos tempos por instantes, enquanto subíamos ao meu apartamento. Depois, tomando um par de anises e outro de "amêndoa amarga", meu amigo egípcio me contou a sua história, desde que saíra do Egito para o Brasil em 1956 por causa da invasão franco-britânica-israelense, até a revolução de 2011 que o trouxera de volta novamente. Perguntou-me se tinha encontrado alguma coisa estranha no baú. Contei-lhe sobre Gamal e Amilah, os dois casais e os seguranças, e a chave, que lhe entreguei. Contei também sobre minha pesquisa e a intenção de encontrar o cofre que ela abriria dada a ausência do amigo há tantos anos. Então me convidou para um passeio na manhã seguinte, mas pediu-me que o encontrasse no centro da cidade por volta das 10 horas da manhã nas escadarias da igreja da Candelária, no portão principal, e que tomasse varias conduções para despistar possíveis intrusos. Avisou-me que não deveria ter confiança na família dele por terem diferentes preferências politicas e religiosas, e por serem muito ambiciosas. Gente perigosa, acrescentou. Contou-me também, em pormenores, como ficara rico e tinha uma boa fonte de aposentadoria.

No dia seguinte chamei três táxis e pedi o numero das placas ou do veiculo: um táxi normal, dois pela Uber, marcando local e horários para me pegarem, descrevendo minha roupa. O ultimo era de um amigo meu que costumava me apanhar quase todos os dias. No horário marcado sai do meu táxi e entrei no carro de Radamés que já me esperava. Fomos a um Banco famoso ali  perto, em pleno centro. A chave abria um cofre de particulares do Banco. Radamés foi até os cofres, abriu o seu. Fiquei a uma certa distancia para lhe garantir a privacidade e vi quando ele tirou um pequeno saco de veludo preto do bolso e transferiu alguma coisa para ele, e o colocou no bolso do casaco. Depois virou a gaveta do cofre e a despejou numa bolsa de plastico preta de supermercado. Deixou a chave dentro da gaveta, em cima da mesa e saímos. 

Alegria e tristeza em despedidas

O carro esperava-nos na saída. Já dentro, Radamés pegou a bolsa preta, do tamanho de meu punho cerrado, e a colocou nas minhas mãos dizendo: - Fique com o baú e com isto. Há coisas que apenas a amizade não pagam. Tenho mais que o suficiente. Lembre-se sempre de mim. Você estará sempre em meus pensamentos e em meu coração. Pela idade que temos pode ser que seja esta a ultima vez que nos encontramos. Foi assim que em menos de 24 horas tinha tido o prazer de reencontrar o amigo, e o tinha perdido novamente. Ele me deixou na porta do edifício de meu apartamento já passava do meio dia. Quando puxei os cordões do pequeno saco preto vi aqueles brilhos ofuscantes e nem pensei duas vezes. Fui ate o armário das garrafas a que chamo de adega, enchi um copo de Bourbon, e tomei de uma talagada só. Aquilo dentro do saco de veludo eram diamantes dos graúdos e médios. Uma fortuna considerável.      

A ultima despedida       
    
No dia seguinte voltei ao Bar. Lá estavam Gamal e Amilah e os dois seguranças. Disse-lhes que o bau tinha sido avaliado e que por ser uma peça incomum e muito bem feita, poderia valer uns 10.000 dólares. Fomos ate meu escritório no Bar. Eles acharam o preço excelente. Amilah tirou da bolsa um pacote e meio de notas de dólar e me ofereceu como pagamento. Quinze mil dólares. Disse-me que minha afeição pelo baú, depois de tantos anos, deveria ser maior do que o valor sentimental deles, no que, interiormente, pensei que deveria ser a pura verdade. Vendi-lhes o baú.  

Não existe coisa mais frustrante que quereremos agradecer a alguém e esse alguém estar indisponível. Onde encontrar Radamés para lhe agradecer? Encontrei-o nas paginas do jornal dois dias depois. Fora encontrado morto em seu apartamento de luxo na zona sul do Rio de Janeiro. Liguei para a policia federal, contei o caso sem mencionar a ida a Banco nem a chave do cofre, e descrevi os suspeitos baseado na historia que Radamés me contara. 

Uns dias depois os seguranças apareceram com Gamal e Amilah no Bar. A policia apareceu também, surgida do nada. Houve tiroteio acirrado e os dois seguranças tombaram mortos na porta de entrada que fica ali perto, no Blogger. Gamal e Amilah foram presos. Perguntei aos policiais a razão do tiroteio. Disseram que era uma quadrilha que agia no trafico internacional de diamantes. As noticias dos jornais no  dia seguinte confirmaram, acrescentando que os diamantes haviam sido recuperados. 

Nem todos, mas isso somente eu sabia. Fui despedir-me de Radamés pela terceira vez em meu apartamento, tomando  meia garrafa de "amêndoa amarga" que me custou mais um dia seguinte de ressaca.

Rui Rodrigues

sábado, 1 de agosto de 2015

De quando o avô Rui tinha oito anos....

O meu tio Miguel Ângelo

(escrito em 2012 e revisto para inserir novas fotos)



O meu tio Miguel ângelo - A segunda “grande” viagem da minha vida

Não posso falar da segunda sem antes fazer uma referência à primeira.

Eram assim os combóios naquele tempo.

A primeira aconteceu quando eu tinha cerca de quatro anos de idade. Lembro-me do cheiro do trem, misto de comida, de farda de soldados, de fezes de porco e de galinha, vapores de uma fábrica que me passava pela janela quando despertei. 



Foto da Estação de Peso da Régua.

Tinha embarcado á noite em Peso da Régua e ia para o Porto, para depois fazer o traslado para Lisboa. Dormi por bom tempo, porque estava nascendo o dia quando vi a tal fabrica passar pela janela bem devagar. O trem era a vapor, apitava, e nos túneis nos enchia de fumaça, a ponto de todos correrem a fechar as janelas. Olhei à minha volta e vi umas senhoras idosas no banco de trás. Uma estava levantada, ajeitando a sua bagagem na prateleira. Ela ria, todos riam, porque um porquinho que ela levava numa caixa resolveu urinar em cima das pessoas que estavam em baixo. Com o alvoroço, e os comentários, galinhas cantaram. O cheiro de fardas do exército, cinzas, com cintos e botas pretas enceradas com banha de porco provinha dessa mistura. Lembro-me a chegada à Campeã, e a chegada a Lisboa. Eu viajava com minha avó. Possivelmente com mais alguém, mas essa viagem deve ter sido traumática, porque não me lembro de mais ninguém de família ou de amigos nesse trem, a pesar de minha excelente memória. Nem do resto da viagem. Provavelmente estava muito entregue a meus pensamentos ou dormindo de cansado. lembro sim, do transbordo na estação do Porto, para pegarmos o combóio para Lisboa.


A foto é da Av. Almirante Reis junto ao Largo do Intendente onde meu tio trabalhava e morava. Eu, minha tia e minha avó, morávamos umas duas quadras acima, na Rua Francisco Sanches, 26. A dona do andar era a dona Lucília que morava com uma irmã, as duas idosas.   

Havia-me mudado definitivamente de minha terra, Fornelos, em Santa Marta de Penaguião, para Lisboa. Minha vida seria lá, a partir da chegada à estação de comboios de Santa Apolônia.Dois anos depois, meu pai foi para o Rio de Janeiro. Fiquei em Lisboa com meu tio Miguel Ângelo, minha tia Elisa e minha avó paterna, Maria de Jesus Pinto Nogueira. Deixara lá a minha mãe que viria a falecer, muito jovem, em seis anos. Morreu aos 30.

Minha escola primária no Largo do Leão.

Um ano depois eu já estava na escola do Largo do Leão, já lia, escrevia uns bons garranchos. Meu tio Miguel era um “boa pinta”, coisa de ator de cinema. Eu queria ser como ele. As namoradas eram de fechar o comércio, todas bonitas, lindas, cheirosas. Naquela época estava na moda uma canção da Carmem Miranda que cantava " chiquita bacana lá da Martinica".  



Largo de Arroios onde meu tio se encontrava com a namorada. Na parte atrás do fotógrafo fica a ponte da Rua Pascoal de Melo, onde moravam minha prima Alice e a Fernanda, com o Teófilo. Ele tinha uma voz "esquista" porque respirava mal por causa de um ataque cardíaco que tivera. 

Na brincadeira ele dizia que elas eram também minhas namoradas. Eu sabia que não, mas ele não sabia que eu sabia. Nunca contei a ninguém que na minha  infância infantil de 4 anos uma menina um pouco mais velha me convidara para ir para o caminho da estrada para passear e que debaixo das parreiras fiquei a saber a diferença entre meninos e meninas... Como esquecer aquelas calcinhas de algodão e o que estava por debaixo delas? Ora, as namoradas de meu tio, quando eu tinha sete anos, não me iriam mostras as suas calcinhas, nem mais ou menos... Em compensação, já que não as dividia realmente comigo, meu tio trazia-me quase todos os dias uns chocolates da venda, ou umas bolachas, rebuçados, pirulitos. Um dia ele tinha comprado um lenço de cabeça para a namorada como presente de aniversário. Era um lenço verde com pintas brancas, de seda muito fina. Minha tia que fuçava tudo descobriu o lenço e ficou muito feliz e acabou por ficar com ele. Dessa confusão que se seguiu, eu não me esqueço. Descobri pela primeira vez que até família unida pode ter as suas desavenças por coisas que não valem nada. 


Esse de óculos embaixo parece ser o meu tio. A foto peguei na net. Terá sido sorte, ou não é ele?

Para a escola, eu ia a pé, mais ou menos oito quarteirões. Com essa idade, minha vida era levantar, ir para a escola, assistir ás aulas, correr até suar no recreio, almoçar na escola o almoço que minha tia Elisa me levava, voltar a estudar, voltar para casa, comer um lanche, fazer os trabalhos de casa, jantar, assistir ás notícias do dia no rádio, e dormir. As sextas feiras passava um programa da Maria Manuela Patacho com histórias faladas com vários personagens. Era a minha única grande diversão! Isso e me divertir no recreio da escola. No dia seguinte, tudo nova e exatamente igual. Aquilo para mim era uma prisão, um tédio, mas gostava de estudar. Era tudo pelo futuro. 

A foto abaixo é do largo do Intendente

Imaginem quando meu tio Miguel me perguntou, uns três dias antes do grande dia, o da viagem,  se eu queria ir com ele numa excursão que passava pela barragem do Castelo do Bode... Meus pulmões não cabiam no peito, o coração acelerou, a vista ficou turva, e comecei o meu chorrilho de perguntas que nunca mais acabavam. Quanto tempo seria a viagem, aonde íamos, o que havia lá, como era o ônibus, de que cor era, como eram as estradas, se tinha rios, se tudo era parecido com Fornelos...



Não dormi durante três dias e três noites. Nem pregar olho... Quando ia dormir, o papagaio do corredor gritava: “Olá... Quem passa?... É o rei que vai pra caça... Ó papagaio looooouuuuroooo”. E lá ia eu sonâmbulo para o colégio.
Não perdi um só segundo da viagem, olhando as paisagens, casas, mosteiros, a cidade de Caldas da Rainha, o Mosteiro da Batalha a barragem do Castelo do Bode com a água represada de um lado e o rio pequeno, diminuto, lá embaixo, do outro lado.  Aquilo me impressionou. Talvez um dia viesse a ser engenheiro, porque eu ia muito bem nas matemáticas e nas ciências.   
Lembro-me vagamente do grupo (da malta) que dizia que eu era bem comportado, das fotos, dos prédios, das paisagens planas que eram tão diferentes das montanhosas de minha terra natal. Durante a viagem vinha um cheiro a feno que entrava pelas janelas, e isso me lembrava o sabonete que usávamos lá em casa: Feno de Portugal. Olhei em todo o ônibus. Não vi nenhuma mulher por quem meu tio pudesse interessar-se. Afinal, nós tínhamos o mesmo gosto para elas. Até as dividíamos... E sei que se houvesse alguma, ele ia dar aquela piscada fatal que me ensinou a dar. Na minha inocência de então, fiquei impressionado como que as mulheres se impressionavam com uma piscadela, sem saber quem o sujeito é, o que faz, o que quer. Sempre perguntavam depois, quando já estavam "amarradas". Perguntei-me, sem dar muita importância, porque razão o meu tio não tinha levado a namorada na excursão. Só meses depois descobri.Meu tio também me deixava. Ia para o Brasil, para ganhar a vida junto com o meu pai. Eram irmãos, amigos, seriam sócios.

A loja de meu pai e meu tio era na Rua Alexandre Mackenzie. no centro do Rio de Janeiro, na foto abaixo, no segundo prédio da direita para a esquerda. 

Depois dessa viagem, se a vida já me parecia uma prisão, passou a ter vapores de algo pior. Saudades dos bons tempos, das canções da ‘Chiquita bacana lá da Martinica “ da Carmem Miranda, dos passeios com as namoradas de meu tio, dos doces que me trazia, do óleo do fígado de bacalhau que me ajudava a tomar, dizendo-me que "um homem é um homem e um bicho é um bicho" e que os homens têm que ser fortes. Saudades do meu tio que me ensinava a ler e a escrever e que leu um livro sobre um velhinho que se tinha perdido da família e que na noite de natal, pobre e esfarrapado, batera à porta da sua própria família para pedir uma esmola e saiu sem dizer quem era... Meu tio me ensinou também os bons sentimentos.




Grande tio, por uns tempos o meu pai, sempre o meu grande amigo, um exemplo de homem forte, determinado, a quem nunca vi discutir em família.  Sei que cada um é como é. Ele é assim.Um grande abraço, tio Ângelo, cheio de saudades e como novidade, meu filho Beto é muito parecido com o senhor. Nunca o ouvi levantar a voz pra ninguém. É verdade que meu pai também era assim. 


Rui Rodrigues

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Mais do que duas viagens no tempo Para Mayoca

Mais do que duas viagens no tempo


Não há ninguém neste mundo que possa dizer que não respeitei os idosos e que não os ouvi, sempre, atentamente. Aprendi muito com eles, hoje sou idoso também.
 

Um dia peguei o possante Renault Clio 1.0, “vermelhão francês cansado”, mais que suficiente para as estradas portuguesas, e pus-me a caminho, com minha família, desde Lisboa até o Algarve. Abalamos da Quinta do Junqueiro onde vivíamos, até Armação de Pêra onde ainda vivem meus tios (amados) Miguel e Nilde.
 
Lembro que pelo caminho ainda dissertávamos sobre aqueles casos de pessoas que pegavam carona e eram encontradas abandonadas à beira da estrada, ainda desacordadas, depois de terem passado por cirurgias que lhes tinham extirpado um rim, parte do fígado, ou um pulmão, para serem vendidos no mercado negro das “doações” de órgãos. Muita fantasia, em que as vítimas eram anestesiadas por “boas noites cinderelas” ou com clorofórmio durante as caronas. Por aquela época eu andava pelos 45 anos e meus tios pelos sessenta.
 
Quando chegamos a Armação de Pêra vimos uma vila simpática, bem algarvia, casas na maioria brancas com aconchegantes chaminés típicas, e lá estava, numa esquina com alto muro, de frente para uma plantação de amendoeiras ainda não em flor, a casa de meus tios, com pomar, vinha, horta e até um mamoeiro protegido por plástico para combater o frio, para ver se vingava e dava frutos. Uma vez brasileiro, é como vício... Gruda no corpo, na alma. Creio que se todos os europeus pudessem ou se arriscassem, morariam aqui no Brasil. O problema são as políticas e os políticos que estragam a beleza da terra. Por lá também, mas parece que são mais comedidos, ou têm mais medo das leis.

Ficamos lá num final de semana mais extenso, não me lembro se sábado domingo e segunda, ou sexta sábado e domingo. Pois por incrível que pareça, ainda aprendi com eles várias coisas.

O que mais nos interessa a nós, aqui no Brasil, que convivemos com uma inflação galopante, foi a arca que compraram. Arca é aquele freezer horizontal, enorme. Estava cheio... Aliás, creio que nunca se esvazia. É uma lição de economia doméstica. Sempre que saem a passeio pelos supermercados, ou por granjas, e vêem produtos com preço “bom” e sabem que precisam repor estoques, compram. Tática que faz parte da batalha contra a inflação. Mas não era só desse modo que economizavam enquanto se divertiam.

 
O vizinho em frente, quando colhia as amêndoas, dessas que se compram pelo natal, não colhia todas porque nem todas estavam maduras, e não contrataria ninguém para recolher os restos porque não valiam a pena. Para meus tios sim, e com permissão do vizinho, lá catavam uns bons baldes de amêndoas... E com outros vizinhos, cachos de uvas remanescentes para fazer vinho, azeitonas para fazer conservas e azeite... Bebi vinho do “Miguel & Nilde”, azeite da mesma “marca”, ambos excelentes, amêndoas torradas como aperitivo, que não eram apenas as amêndoas. Eram deliciosas as alcachofras colhidas a monte. 


Meus tios nascidos no Norte e a meio caminho entre Algarve e Norte (ela é brasileira de Coimbra), são e sempre foram o meu aperitivo para as coisas boas da vida, um belo exemplo de companheirismo. Mas tenho minhas imperfeições, ou não, e não aprendi tudo. Claro! Sei muito de sua vida, mas não sou eles, nem sei tudo nem tenho que saber. Armação de Pêra tem praia, pescadores, redes, o clima não é tão frio, uma casa, uma família, vinho às refeições, uns passeios a pé, calor humano até no inverno, lembranças quase seculares. Muita coisa mudou lá fora. Dentro da casa, quase nada. Só uma adaptação aos tempos e á idade.
 
Aprendi muito com eles. Dou-lhes minha gratidão e lhes agradeço boa parte dos meus prazeres da vida. A felicidade não é coisa simples, mas não tem nada de complicada. Basta ficarmos felizes conosco mesmos, se nossa moral não nos condena. E muitas vezes nossos "pais", nossos maiores exemplos, nem são os pais, mas os tios, os avós, os primos, e até casais de amigos... E fico imensamente grato a Fornelos onde eu, meu pai, minha tia Elisa e meu tio nascemos. Obrigado, Brasil, que tão bem, mas tão bem me acolheste e à minha família. 




® Rui Rodrigues.   

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Lendo Tudo...





Infância é aprendizado. Exceto os aspectos sob a égide do masculino-feminino, o resto do aprendizado é idêntico para ambos os sexos. Nenhuma diferença. Minha neta é a segunda prova disso, a primeira foi minha filha, porque participei da educação das duas. Infelizmente, da minha neta, muito pouco, quase nada. Digo infelizmente porque gostaria de participar mais, não porque faça falta. Minha filha é mãe muito competente. Chego a achar, por vezes, que ela que é a avó, e a avó a bisavó, eu o bisavô. A mãe dela é uma avó! Gostei desse aspecto!


Minha neta me faz voltar aos tempos daqueles momentos em que nos lembramos dos momentos felizes de nossa infância. Sinto-me um amiguinho dela quando estamos juntos, e não o avô. Mas o mérito é todo dela. É ela que me faz e não eu que a faço. Por mim seria um pouco mais “alemão” com ela, mas jamais me permite- e me permiti -isso...Ela é impecável!... E com seis anos recém feitos, pouco passa dos cinco, lê tudo, até a palavra “palhaçada” num álbum de férias da “Mônica”, que a mãe lhe comprou numa banca de jornal em Cabo Frio e que ela colore com todo o cuidado e as melhores combinações de cores, preenchendo os espaços sem “borrar”. Nenhuma historinha atual traz imagens de bondes, que lá na terrinha onde nasci chamamos de “elétricos”.

 
Na minha infância havia. Amarelos fechados para primavera outono e inverno, e os vermelhos que lá se chamam de “encarnados”, abertos, para o verão europeu que é quente. Quente e seco, abafado, assim como em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A maioria de nós, brasileiros, não se lembra do que é andar de bonde, e por terras imensas, de largas avenidas, não tem como saber o que é viajar num bonde em ruas estreitas, cujas portas, janelas e pessoas passam zunindo, a jato, que nem dá tempo para ler o numero dos prédios e casas, nem quase o rosto das pessoas porque a velocidade não deixa. Pois foi com os bondes que aprendi minha técnica de leitura dinâmica. Eu era um pouco mais velho. Já tinha sete anos quase acabados, quando aprendi a ler. Tal como minha netinha, eu queria ler tudo. Aprendi a ler a jato sentado numa cadeira de bonde, e tentando ler cartazes de anúncios e tabuletas de lojas... Muitos outros passageiros devem ter achado que eu era maluco, porque volta e meia torcia o pescoço só para acabar de ler o que estava escrito na tabuleta. Muitas vezes me deparei com passageiros no banco detrás acompanhando o meu olhar não fossem perder alguma coisa que eu vira e eles não. Pessoas são assim mesmo. Todas querem ver o que os outros estão vendo, mas não treinam para ver. Com aquela idade, e se bem entendi o Freud, quando olhava os rostos de pessoas que via passar feitos relâmpagos, eu deveria estar procurando algum rosto conhecido naquele mundo imenso de uma Lisboa cheia de desconhecidos simpáticos que muitas vezes me ajudaram quando pedi informação ou de moto próprio se acercaram de mim perguntando se estava precisando de ajuda.



A leitura nos abre caminhos para um mundo totalmente novo. Amplia os horizontes. Acho até que é a primeira responsável pelo crescimento do volume cerebral. É preciso ter mais massa cinzenta para decorar tudo o que se lê, raciocinar sobre o que se leu, definir uma avaliação ainda que seja temporária, e guardar como numa biblioteca. A biblioteca, cérebro ou cachimônia, tem que ser muito grande. Para se ter uma ideia prática do que estou tentando dizer, aconteceu com minha netinha em Búzios. 


Antigamente, antes de aprender a ler, ela passaria pelo cartaz, talvez louca para saber o que estava escrito, o que eram aquelas letrinhas no cartaz, e passaria batida sem dar mais atenção. Ah... Mas agora sabe ler. Então, parou em frente ao cartaz e leu: “Táxi” e mais alguma coisa que lhe fez dar um estalo, puxar o braço da mãe e dizer: Olha mãe... Táxi para a praia... Eu queeeero! E como iam mesmo para uma praia daquelas, foram de táxi. Quando criancinhas que sabem ler e perguntam o que é aquilo, já não dá pra dizer que “não é nada que te interesse”... Crianças por vezes se deixam enganar para não "criar" caso. Elas sabem ler !

Não acho que, particularmente, minha netinha se pareça comigo, mas é quase igual àquela criança que eu fui. Agitada e louca por leitura. 


® Rui Rodrigues